De quem me faço próximo?

A liturgia deste domingo (14/7) convida-nos a três ações que hão de revelar nosso amor a Deus:

29/07/2019 às 19h14

1) Escutar a voz de Deus; 2) Observar seus mandamentos; 3) Converter-se ao Senhor (Dt 30,10) Trata-se de um movimento ou um processo que nos coloca no caminho da santidade. Aos que tal caminho pareça difícil, o livro do Deuteronômio revela o contrário ao considerar a proximidade de Deus junto de seu povo. Contudo, é necessária a decisão da pessoa em fazer-se próxima de Deus. Esta verdade fica ainda mais evidente com o ensinamento de Jesus no Evangelho, através da conhecidíssima parábola do bom samaritano da qual ressaltamos alguns detalhes.

Voltemos nosso olhar, antes de tudo, para a pergunta que o doutor da lei faz ao se aproximar de Jesus. Qual sua preocupação? Ter acesso à herança da vida eterna. A esse respeito, escreve o biblista Frei Carlos Mesters: “o doutor acha que deve fazer algo para poder herdar. Ele quer garantir a herança pelo seu próprio esforço. Mas uma herança não se merece. Herança a gente recebe, pelo fato de ser filho ou filha. Como filhos e filhas não podemos fazer nada para merecer a herança. Podemos é perdê-la!”.

Eis um alerta para todos nós. Somos filhos e filhas de Deus que nos deixa uma herança gratuitamente. O que fazer para não perdê-la? A resposta é simples: cumprir a lei de Deus que está próxima de nós, como nos fala o livro do Deuteronômio (Dt 30,14). Esta lei se resume no amor a Deus e ao próximo. É ela que nos garante a herança prometida por Deus. O doutor da lei revela pleno conhecimento disso ao responder à pergunta de Jesus: “O que está escrito na lei?” (Lc26).  O desafio, no entanto, não é conhecer esta lei. Isso é fácil. Para isso temos a catequese, as pastorais, as liturgias, o estudo e tantos outros meios que nos revelam esta verdade. Onde está, então, o desafio? Em compreender e colocar em prática esta lei, lembrados de que “do conhecer não é automático o amar”, como ensina o papa Francisco.

A condição para partirmos do ‘conhecer para o amar’ é fazer-nos próximos do outro e, assim, cumprir plenamente a Lei. Da parábola concluímos que o outro não é próximo de mim, mas eu é que me faço próximo do outro. Tanto é verdade que, após a parábola, a pergunta de Jesus é: “Na sua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (Lc 10,36). O Bom Samaritano mostra, portanto, que todo cristão deve fazer-se próximo daqueles que estão caídos e feridos nos caminhos da vida, dedicando-lhes tempo e recursos de que dispõe para recuperar-lhes a vida.

O fazer-se próximo é antecedido seguinte movimento: chegar perto, ver, sentir compaixão (Lc 10,33). Só a compaixão nos move ao encontro do outro que está desfigurado e ferido em sua dignidade. Observemos as atitudes do sacerdote e do levita, homens ligados ao culto, portanto, ‘próximos de Deus’ a quem, certamente, amavam e prestavam adoração. Eles viram de longe e passaram do outro lado. Deixaram-se levar pela indiferença que os fez olhar para si mesmos. Nem se quer se aproximaram. Aqui vale o alerta do papa Francisco: “Não existe verdadeiro culto se esse não se traduz em serviço ao próximo”. Isso nos faz interrogar sobre nossa participação na Igreja, não é mesmo?

A compaixão leva o Samaritano ao despojamento, a atrasar sua viagem, a gastar do próprio bolso, a preocupar-se com a vida do outro. A compaixão nos conduz ao esquecimento de nós mesmos, de nossos projetos, de nossa vida pessoal em favor do outro que mais necessita. Isso é o amor ao próximo. É a plenitude da caridade.

No entanto, só é capaz de mover-se de compaixão quem faz de Jesus o centro de sua vida. A partir de Jesus, seu olhar se estende para o outro que vive situações de sofrimento e de dor. Considerando a realidade de nosso país, se nos aproximamos dos que estão caídos pelo caminho, açoitados e assaltados pelo sistema, então, haveremos de nos preocupar com a Reforma da Previdência que, não obstante necessária, segundo especialistas, irá prejudicar os mais pobres; não ignoraremos os que sofrem violência de todo tipo, os que são desrespeitados em seus direitos como os indígenas, quilombolas, ribeirinhos; não nos calaremos diante da devastação do planeta terra, do desmatamento da Amazônia e da degradação do meio ambiente provocada pelo agronegócio e outras atividades, como a mineradora, que buscam o lucro acima de tudo.

Alerta-nos o papa Francisco: “Quando encontro uma pessoa dormindoao relento, numa noite fria, posso sentir que este vulto seja um imprevisto que me detém, um delinquente ocioso, um obstáculo no meu caminho, um aguilhão molesto para a minha consciência, um problema que os políticos devem resolver e talvez até um monte de lixo que suja o espaço público. Ou então posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão! Ou poder-se-á, porventura, entender a santidade prescindindo deste reconhecimento vivo da dignidade de todo o ser humano?” (Gaudete et Exultate, 98).

Por Pe. Geraldo Martins -  julho 15, 2019

 


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