Ensina-nos a rezar

Na liturgia dos últimos domingos, temos acompanhado a longa viagem de Jesus da Galileia para Jerusalém durante a qual vai deixando preciosos ensinamentos aos seus discípulos.

29/07/2019 às 18h57

A primeira apresenta a missão que deve ser assumida por todos que se fazem seus seguidores (Lc 10,1-12.17-20). A segunda destaca a solidariedade/caridade como distintivo do cristão impelido a fazer-se próximo do outro a exemplo do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). A hospitalidade vem logo a seguir, desafiando-nos a acolher o próprio Deus naqueles que vêm ao nosso encontro (Lc 10,38-42). Na liturgia deste final de semana (28/7), o destaque fica por conta da oração, coluna que sustenta a vida dos discípulos e discípulas de Jesus (Lc 11,1-13).

A oração revela, pelo menos, duas verdades. Por um lado, a carência, a indigência e a fraqueza do ser humano que, por si só, nada pode. Por outro lado, a grandeza de Deus que, sempre pronto a atender sua criatura predileta, mostra a largueza e a profundidade de seu amor e de sua bondade que não têm limite. Somos, portanto, convidados a refletir sobre o lugar que a oração ocupa em nossa vida e a perceber que muitos de nossos fracassos e derrotas resultam de nossa negligência na prática da oração perseverante.

No livro do Gênesis, Abraão nos mostra que a oração é, antes de tudo, um diálogo com Deus. A base desse diálogo é a confiança que permite a Abraão ser insistente com Deus, numa ousadia própria de um filho que não tem medo do pai. Ao contrário, porque é filho, tem a liberdade de dizer a Deus o que lhe vem ao coração. O bonito é que Deus se deixa interpelar por Abraão ao invés de repreendê-lo.

O que caracteriza a oração de Abraão? A súplica! Chama atenção, no entanto, o fato de ele suplicar não por si, mas pelo povo de duas cidades ameaçadas de destruição por causa da injustiça e do pecado: Sodoma e Gomorra. Esse detalhe é interessante. Abraão intercede a Deus em favor dos justos para que não pereçam com os iníquos. Aqueles (os justos) se tornarão, ao contrário, causa de sua salvação destes (os iníquos). Na oração, Deus demonstra sua disposição de perdoar todos os pecadores se, entre eles, houver pelo menos um justo. Esse gesto nos faz compreender a palavra de Tertuliano: “Só a oração vence a Deus”!

Nosso modelo maior de quem sabe rezar, no entanto, é o próprio Cristo. Os evangelhos registram vários momentos em que ele se encontra sozinho, em lugar deserto, ocupado unicamente de conversar com o Pai. Lição para nós que não conseguimos fazer deserto em nossa vida, dominados pelo corre-corre cotidiano ou pelas tecnologias que nos aprisionam e nos fazem online diuturnamente. Quantas energias desprendidas desnecessariamente porque não termos sido capazes de nos colocar alguns breves momentos diante do Senhor!

Como os discípulos de Jesus, muitos cristãos dizem que não sabem rezar. Aprendamos com Jesus que nos ensina uma oração simples, ligada à vida, sem muitas palavras. Já aí temos uma bela lição: evitar a multiplicação de palavras na oração. Jesus nos ensina a chamar a Deus de Pai. Trata-se, como vimos na primeira leitura, de um diálogo. Com isso, aproxima Deus de nós e nos faz próximos de Deus. Isso faz toda a diferença. Nenhuma oração será eficaz se colocarmos Deus tão distante a ponto de não sentirmos sua presença em nós. Lembremo-nos: nosso pecado nos afasta de Deus, mas Deus nunca se afasta de nós. Devemos isso ao seu amor, à sua misericórdia e à sua bondade.

Nossa oração, como testemunha Jesus, deve ter dois movimentos. O primeiro se volta para Deus-Pai, de quem tudo procede. Pedimos que nos ajude a santificar seu nome e a acolher o seu Reino. Reconhecemos, assim, que todas as nossas ações devem estar voltadas para Deus. É dessa forma que o louvamos e glorificamos.

O segundo movimento está voltado para os irmãos e irmãs cujas necessidades apresentamos a Deus: o pão de cada dia, o perdão e a força para vencer o mal. A parábola contada por Jesus retrata que Deus nunca deixará de nos atender desde que o tenhamos como amigo, nos dirijamos a Ele com confiança, sejamos perseverantes e insistentes. Eis as caraterísticas da verdadeira oração!

Alcançamos os benefícios e as graças de Deus não por mérito, mas por pura bondade de Deus. Que isso fique claro para que ninguém se vanglorie ou se julgue melhor do que o outro. É o que deduzimos da palavra do Evangelho: “Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lc 11,13).

Ninguém tenha escrúpulo em “pedir, procurar e bater” (Lc 11,9). E podemos fazer isso de forma insistente, perseverante! Desconfio muito daqueles que dizem: “Só tenho a agradecer a Deus e nada a pedir!”. Isso, muitas vezes, me parece mais medo e escrúpulo na relação com Deus do que humildade e gratidão. Na oração cabem sempre: louvor, gratidão e súplica.

Guardemos o que diz Tertuliano: “A oração não tem outra finalidade senão tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão de pé”.

Insistentemente peçamos: Senhor, ensina-nos a rezar!

Julho 27, 2019 Pe. Geraldo Martins


 


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